Vitória – Centro de Reabilitação e Terapia Neuromotora Intensiva

Sobre abraços apertados, aceitação que liberta e a sopa do Pedro.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Pedro nasceu no dia 30 de maio de 2009. Cesárea de emergência por sofrimento fetal agudo. Primeira informação no prontuário: morte aparente, apgar 0. Segunda informação: VPP sem resposta, seguido de IOT e massagem cardíaca. Terceira informação: reagiu, intubado e levado para a UTI neonatal.

As 48 horas seguintes foram as mais difíceis. Paradas cardíacas e picos de hipoglicemia que levavam à mais paradas. No prontuário: anóxia perinatal, edema cerebral, insuficiência renal, hemorragia intracraniana grau IV, celulite, septicemia, solicitação de plaquetas. Era a primeira vez que eu lia aquelas palavras, que para mim não diziam muito. Recebi alta, Pedro ficou. Em casa comecei a buscar no Google o significado das palavras escritas no prontuário.

Uma barra de pesquisa e a minha fase de luto e negação

Os próximos dias continuaram assim: eu passava o dia na UTI do hospital e a noite na frente do computador buscando respostas para tudo o que eu lia no prontuário.

Mas tudo o que eu encontrava eram prognósticos terríveis para aquelas palavras. Foi aí que entrei na fase do luto e da negação. Minha busca naquela barra de pesquisa era assim: Apgar 0. Os resultados: encefalopatia hipoxico isquêmica. Paralisia cerebral. Então, eu negava e digitava “crianças que nasceram com Apgar 0 e não tem sequelas”, “Crianças que tiveram hemorragia intracraniana e andam” “crianças que sofreram anoxia e não tem paralisia cerebral”. Eu não queria aceitar. Queria exemplos e historias de milagres. Queria outra realidade, queria me preocupar com leite empedrado, massagem pra cólica, as primeiras palavras, a entrada na escola.

E se você chegou até este texto, através de palavras digitadas em uma barra de pesquisa, receba meu abraço bem apertado. Você não está sozinha. E mais, você tem todo o direito do mundo de negar essa situação não esperada. Você pode chorar e dizer que queria que tudo fosse diferente. Receba mais um abraço apertado. Você não foi preparada para viver essa vida. Nenhuma propaganda de pomada, de fralda, de roupinhas de bebê foi feita com crianças com deficiências. A sociedade de consumo só exibe padrões de perfeição.

Aceitar com liberdade é reconhecer as dores que a vida traz pra gente

Mas o que eu quero te dizer é que essa negação não vai durar para sempre. Essa negação vai dar espaço para a aceitação. Mas não uma aceitação resignada, de conformismo. E sim uma aceitação libertadora. É essa aceitação que vai fazer você lutar pela felicidade da sua filha ou do seu filho. Aceitar com liberdade é reconhecer as dores que a vida traz pra gente e ao mesmo tempo agradecer a cada vitória. É ser livre para chorar quando tiver que chorar, seja de dor ou de alegria. Eu costumo dizer que essa aceitação é emancipatória. É reconhecendo as necessidades do meu filho que eu adquiro força para lutar com ele. E é assim que avançamos, dia após dia.

A cada conquista, uma pedra de negação é jogada fora!

A transição da negação para aceitação não é automática. Ela é construída, de dentro para fora, e pode ser um tanto dolorosa. Existe um conto popular, do Pedro Malasartes sobre como o Pedro enganou uma velha sovina com uma sopa de Pedras. Neste conto, Malasartes, muito astuto, começa a cozinhar uma sopa de pedras e vai fazendo com que a senhora coloque aos poucos todos os ingredientes para uma sopa deliciosa, temperos e legumes com a conversa de que assim, sua sopa de pedras ficaria saborosa e ele poderia dar um pouco da sopa para ela. Ao final, com a sopa pronta, ele retira as pedras e a velha indignada pergunta se ele não vai tomar a sopa com as Pedras. Ele responde que ninguém em sã consciência toma uma sopa com Pedra a não ser que queira ter todos os dentes quebrados.

A cada conquista do meu filho, cada sorriso, cada gesto de gratidão pela vida que ele manifestava mesmo sem dizer qualquer palavra, era uma pedra de negação jogada fora. Aos poucos fui percebendo que a vida pode ser sim, deliciosa de se viver. Acordar pela manhã e receber um beijo estalado e olhinhos brilhantes é das coisas mais lindas do mundo.

É possível sim estabelecer uma comunicação intensa com o olhar

Meu filho mudou a minha vida e minha maneira de enxergá-la. O aprendizado é diário. Com ele aprendi a apreciar cada detalhe de tudo. Nunca mais uma flor no caminho, uma folha caindo ou um por do sol passaram despercebidos. Pedro não fala, mas o seu olhar diz tanto que consigo estabelecer uma comunicação intensa. Nossa vida é uma troca, quase que simbiótica, de amor.

Mulher, mãe, quero finalizar esse texto com mais um abraço forte. Que você seja respeitada nas suas dores, e que também possa viver uma relação de felicidade, amor e liberdade com a sua filha ou com o seu filho.

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